domingo, 7 de abril de 2013

O Poder do Agora - Parte 9


“É fácil manter as coisas a distância; difícil

é ficar naturalmente além delas”  (Bunan)



     Um “auê” muito grande foi feito em cima do fim do calendário maia que tinha sua data limite em dezembro do ano passado (2012). Uns disseram que naquela data o mundo iria acabar. outros que o planeta sofreria grandes cataclismos e até podemos ver alguns acontecendo. Houve outros, porém que alinharam esta data ao final do “império” do medo. Mas que medo é esse?!

     Se pararmos para analisar, veremos que existe toda uma cultura em cima do medo. As religiões nos ameaçam com o fogo do inferno. Os poderes constituídos, com as leis. Dos ladrões e assassinos temos medo que nos roubem e nos matem. Existem outros medos mais sutis. O estudante tem medo de não passar nos exames finais. Hoje os alunos estudam para passar nos exames quando deveriam estudar para adquirir conhecimento. No entanto todo o sistema de avaliação atual é competitivo (notas, primeiro e último lugar) gerando uma nuvem sobre a real finalidade do estudo.

     Com algumas exceções, desde pequenos fomos educados através do medo das punições impostas por nossos pais. Não importa se tínhamos medo das punições físicas ou mentais. O fato é que a grande maioria da humanidade cresceu e ainda vive numa cultura que dá um enfoque principal ao medo.

     Na cultura indígena isto não acontece. As crianças crescem aprendendo com as consequências das suas ações. É claro que não podemos viver de acordo com a cultura indígena, mas podemos alcançar alguma compreensão observando e analisando a sua maneira de viver.

     Observo por mim. No primeiro colégio que estudei o professor tinha uma régua de mais ou menos um metro, com a qual ele batia na cabeça do aluno que não prestasse atenção. Num segundo colégio a Diretora mostrou uma mancha no chão que supostamente havia sido em consequência do sangue de um mau aluno. (Terror psicológico). No estudo religioso, o medo de ir para o inferno por algum pecado era uma constante. Lembro que certa vez quebrei uma faca de mesa e a joguei fora com medo de ser severamente punido por meus pais, mas o medo de ir para o inferno por causa deste “pecado” me acompanhou por muito tempo.

     Com a aprovação do Estatuto da criança e do Adolescente algumas coisas melhoraram, no entanto os exageros causam problemas. Com a lei dizendo que as crianças não devem trabalhar, hoje fica difícil ensinar a elas, responsabilidade.

     As pessoas vivem de acordo com o que elas aprenderam, por isso acredito que é preciso repensar e alterar a maneira como o sistema educativo é conduzido em nosso país. Não conseguimos conceber que aquele que ensina seja desconsiderado e muitas vezes menosprezado por quem detém o poder de decisão.

     Hoje vivemos sob o medo real em função da insegurança da sociedade atual.

     Já perceberam como determinadas pessoas tem intensa necessidade de falar sobre seus problemas, dores e sofrimento? Parece que ao falar de seus problemas elas se sentem melhor. No entanto passado o momento de desabafo tudo continua a ser como era. Qual será o caminho para uma real melhora?

     O autor do livro que estamos reproduzindo, aborda no trecho a origem do medo abaixo, uma falha psicológica que ele chama de doença psicológica do medo. Vale a pena conferir.



(Continuação do livro O Poder do Agora de Eckhart Tolle.)



A identificação do ego com o sofrimento



O processo que acabei de descrever é extremamente poderoso, embora simples. Poderia ser ensinado a uma criança, e tenho a esperança de que um dia será uma das primeiras coisas a serem aprendidas na escola. Uma vez entendido o princípio básico do que significa estar presente observando o que acontece dentro de nós – e “entendemos” isso quando passamos pela experiência –, teremos à nossa disposição a mais poderosa ferramenta de transformação.

Não nego que podemos encontrar uma forte resistência interna tentando nos impedir de pôr um fim à identificação com o sofrimento. Isso acontecerá particularmente se tivermos vivido intimamente identificados com o sofrimento emocional durante a maior parte da Vida e se tivermos investido nele uma grande parte ou mesmo todo o nosso sentido de eu interior. Isso significa que construímos um eu interior infeliz por conta do nosso sofrimento e acreditamos que somos essa ficção fabricada pela mente. Nesse caso, nosso medo inconsciente de perder a identidade vai criar uma forte resistência a qualquer forma de não-identificação. Em outras palavras, você preferiria viver com o sofrimento – ser o sofrimento – a saltar para o desconhecido, correndo o risco de perder o seu infeliz, mas familiar eu interior.

Se esse é o seu caso, observe a resistência dentro de você. Observe o seu apego ao sofrimento. Esteja muito alerta. Observe como é estranho ter prazer em ser infeliz. Observe a compulsão de falar ou pensar a esse respeito. A resistência deixará de existir se você torná-la consciente. Poderá então dar atenção ao sofrimento, estar presente como testemunha e iniciar a transformação.

Só você pode fazer isso. Ninguém pode fazer por você. Mas, caso tenha bastante sorte para encontrar alguém intensamente consciente, se puder estar com essa pessoa e juntar-se a ela no estado de presença, isso poderá ser de grande utilidade, acelerando o processo. Se isso acontecer, a sua própria luz logo brilhará mais forte. Quando colocamos um pedaço de lenha que tenha começado a queimar há pouco tempo perto de outro que está queimando vigorosamente e, depois, separamos os dois novamente, o primeiro tronco passará a queimar com uma intensidade muito maior. Afinal de contas, é o mesmo fogo. Ser um fogo dessa natureza é uma das funções de um mestre espiritual. Alguns terapeutas estão aptos a preencher essa função; desde que tenham alcançado um ponto além do nível de consciência e sejam capazes de criar e sustentar um estado de presença intensa e consciente enquanto estiverem trabalhando com você.
A origem do medo

 
            Você mencionou o medo como uma parte do nosso sofrimento emocional latente. Por que há tanto medo na vida das pessoas? Uma certa dose de medo não é saudável? Se eu não tivesse medo do fogo, poderia colocar minha mão dentro dele e me queimar.

A razão pela qual não colocamos a mão no fogo não é o medo, e sim a certeza de que vamos nos queimar. Não é preciso ter medo para evitar um perigo desnecessário, basta um mínimo de inteligência e bom senso. Nessas questões práticas, é muito útil aplicarmos as lições do passado. Mas se alguém nos ameaça com fogo ou com violência física, talvez experimentemos uma sensação como o medo. É uma reação instintiva ao perigo, sem relação com a doença psicológica do medo que estamos tratando aqui. A doença psicológica do medo não está presa a qualquer perigo imediato concreto e verdadeiro. Manifesta-se de várias formas, tais como agitação, preocupação, ansiedade, nervosismo, tensão, pavor, fobia, etc. Esse tipo de medo psicológico é sempre de alguma coisa que poderá acontecer, não de alguma coisa que está acontecendo neste momento. Você está aqui e agora, ao passo que a sua mente está no futuro. Essa situação cria um espaço de angústia. E caso estejam identificados com as nossas mentes e tivermos perdido o contato com o poder e a simplicidade do Agora, essa angústia será a nossa companhia constante. Podemos sempre lidar com uma situação no momento em que ela se apresenta, mas não podemos lidar com algo que é apenas uma projeção mental. Não podemos lidar com o futuro.

Além do mais, enquanto estivermos identificados com a mente, o ego rege as nossas vidas, como mencionei anteriormente. Por conta da sua natureza ilusória e apesar dos elaborados mecanismos de defesa, o ego é muito vulnerável e inseguro e vê a si mesmo em constante ameaça. Esse é o caso aqui, mesmo que o ego seja muito confiante, em sua forma externa. Agora, lembre-se que uma emoção é a reação do corpo à mente. Que mensagem o corpo está recebendo permanentemente do ego, o falso eu interior construído pela mente? Perigo, estou sob ameaça. E qual é a emoção gerada por essa mensagem permanente? Medo, é claro.

O medo parece ter várias causas – tememos perder, falhar, nos machucar –, mas em última análise todos os medos se resumem a um só: o medo que o ego tem da morte e da destruição. Para o ego, a morte está bem ali na esquina. No estado de identificação com a mente, o medo da morte afeta cada aspecto da nossa vida. Por exemplo, mesmo uma coisa aparentemente trivial ou “normal”, como a necessidade de estar certo em um argumento e demonstrar à outra pessoa que ela está errada, defendendo a posição mental com a qual nos identificamos, acontece por causa do medo da morte. Se estivermos identificados com uma atitude mental e descobrirmos que estamos errados, nosso sentido de eu interior baseado na mente corre um sério risco de destruição. Portanto, assim como o ego, você não pode errar. Errar é morrer. Muitas guerras foram disputadas por causa disso e inúmeros relacionamentos foram destruídos. Uma vez que não estejamos mais identificados com a mente, não faz a menor diferença para o nosso eu interior estarmos certos ou errados. Assim, a necessidade compulsiva e profundamente inconsciente de ter sempre razão – o que é uma forma de violência – vai desaparecer. Você poderá declarar de modo calmo e firme como se sente ou o que pensa a respeito de algum assunto, mas sem agressividade ou qualquer sentido de defesa. O sentido do eu interior passa a se originar de um lugar profundo e verdadeiro dentro de você, não mais de sua mente. Tenha cuidado com qualquer tipo de defesa dentro de você. Está se defendendo de quê? De identidade ilusória, de uma imagem em sua mente, de uma identidade fictícia? Ao trazer esse padrão à consciência, ao testemunhá-lo, você deixa de se identificar com ele. Sob a luz da consciência, o padrão de inconsciência irá se dissolver rapidamente. Esse é o fim de todos os argumentos e jogos de poder, tão prejudiciais aos relacionamentos. O poder sobre os outros é fraqueza disfarçada de força. O verdadeiro poder é interior e está à sua disposição agora.

O medo será uma companhia constante para qualquer pessoa que esteja identificada com a mente e, portanto, desconectada do seu verdadeiro poder, o eu profundo enraizado no Ser. O número de pessoas que conseguiram alcançar o ponto além da mente ainda é extremamente pequeno, o que nos leva a presumir que, virtualmente, todas as pessoas que você encontra ou conhece vivem em um estado permanente de medo. Só o que varia é a intensidade. Ele flutua entre a ansiedade e o pavor numa ponta da escala e um desconfortável, vago e distante sentido de ameaça na outra. Muitas pessoas só tomam consciência disso quando o medo assume uma de suas formas mais agudas.
(Continua)





     Busquemos cada vez mais a compreensão de nós mesmos ao mesmo tempo que vivenciemos uma semana de Paz e Harmonia.

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