terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Orgulho e Vaidade

            Senti vontade de abordar o tema destes dois perigosos sentimentos porque quando começamos a perceber o verdadeiro significado da vida é quase impossível não fazermos uma auto-análise. Se olharmos atentamente e com sinceridade nossa maneira de pensar e agir perceberemos alguns traços em nosso ser destes dois vilões. Tenho ouvido pessoas usarem o termo orgulho em dois sentidos. Um quando realizam algo e se sentem satisfeitos com o resultado (“sinto-me orgulhoso do que fiz”). Outro quando uma pessoa recusa-se em mudar sua opinião mesmo quando todos os fatos apontam na direção contrária (“deixe de ser tão orgulhoso e aceite os fatos”).
            Fernando Pessoa abordou o orgulho dizendo que ele é a consciência, certa ou errada, do nosso próprio mérito. Depreendo daí que talvez ele quisesse referir-se a “consciência certa” quando a pessoa realmente possui méritos e tem consciência disto. Já sobre a vaidade ele diz que ela é a consciência, certa ou errada da evidência do nosso mérito para os outros.
            O orgulho resulta, portanto, da idéia que fazemos de nós mesmos, mas quase sempre, essa idéia não é real, isto porque é muito difícil conseguirmos ver a nós próprios como realmente somos no cotidiano. Estamos acostumados com vernizes sociais. Nosso ego quer sempre ser afagado e prefere sempre ouvir gentilezas a verdade nua. Nosso ego através da mente é um especialista em arranjar desculpas e justificativas para nossas falhas. Não somos humildes o suficiente para aceitar isso. Nunca devemos confundir humildade com deixar-se humilhar. A verdadeira humildade não é uma falsa modéstia, mas o reconhecimento claro da realidade que nos envolve, tal qual ela é. É algo mais inerente ao intelecto do que à moralidade.
            Voltando a analisar uma pessoa orgulhosa no sentido de que não aceita a veracidade dos fatos em detrimento de sua opinião, observamos que as pessoas que convivem com ele notam de forma clara o ridículo pelo qual ele passa e por serem gentis ocultam-lhe este fato, mas evitam-no sem deixá-lo saber por quê.
            A diferença entre o orgulho e a vaidade é que enquanto este é uma espécie de loucura que nos afasta da realidade de como as coisas realmente são. O orgulho, portanto, é a convicção íntima de ser melhor, ainda que ninguém o veja. A vaidade é uma insinceridade, uma hipocrisia. Um desejo secreto de ser o que não somos para causar uma boa impressão no ambiente onde vive. Uma pessoa orgulhosa geralmente também é vaidosa enquanto que uma pessoa vaidosa nem sempre é orgulhosa.
            Poucas pessoas possuem visão interior correta, ou seja, a capacidade de observarem a si mesmas, fazendo uma autocrítica justa, não tendenciosa. Quem possui essa visão interior consegue avaliar a si mesmo, sem ilusões. A visão interior correta é o resultado de esforço, de auto-análise, de reflexão, de maturação do próprio espírito. Ainda somos imaturos espiritualmente, pois quando resolvemos fazer alguma observação sobre nós mesmos a nossa deformada visão interior só vê aquilo que possa servir de base para o nosso orgulho, a nossa vaidade. Por isso geralmente só vemos as coisas positivas, principalmente aquelas que acreditamos, ou nos interessa acreditar que possuímos.
            Na verdade costumamos nos ver numa condição muito superior à realidade. As qualidades que observamos em nós, nos parecem bem maiores do que são, e os defeitos que temos e que anulam muitas das nossas qualidades Nossos defeitos, geralmente não os conseguimos ver ou os vemos com os olhos da complacência.
            Não haverá crescimento interior enquanto camuflarmos nossas falhas. Precisamos ser verdadeiros conosco mesmos. Acredito mesmo que esta é a principal finalidade de estarmos aqui na Terra - a de evoluirmos através das experiências.
            Desejo a todos um Feliz Natal e uma semana de Paz e Harmonia.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Raiva e Ódio


De todas as emoções que nos afligem tanto o ódio como a raiva situa-se na parte mais alta de todos os males. Estes dois sentimentos são tão parecidos que talvez alguma pessoa ache que são iguais.


O dicionário define raiva como a privação de raciocínio lógico, falta de calma, distúrbio do equilíbrio emocional e o ódio como um sentimento de profunda antipatia, desgosto, aversão, raiva, rancor profundo, horror, inimizade ou repulsa contra uma pessoa ou algo, assim como o desejo de evitar, limitar ou destruir o seu objetivo.


Assim vemos que o ódio é mais profundo que a raiva. Enquanto a raiva seria mais uma emoção, o ódio seria, predominantemente, um sentimento. O que é certo, segundo a medicina, é que ambos são nocivos à nossa saúde.


A raiva aumenta significativamente os riscos de ter algum problema sério de saúde. Durante um acesso de raiva nossos vasos sanguíneos se contraem aumentando a pressão arterial e aumenta a agregação de placas causando uma oclusão das coronárias que como consequência poderá causar um infarto do miocárdio. Fora isso, se a pessoa for alérgica poderá ter uma crise ou se tiver uma úlcera digestiva terá seu estado agravado.


Médicos pesquisadores descobriram que as pessoas que se irritam têm três vezes mais probabilidades de sofrer um infarto do que aquelas que encaram as adversidades com mais calma e serenidade. Segundo eles, isso ocorre porque o organismo libera uma carga extra de adrenalina no sangue e é essa adrenalina que causa os efeitos citados acima.


Já se sabe que quem fuma tem até cinco vezes mais possibilidades de sofrer um ataque cardíaco, pessoas de vida sedentária apresentam risco 50% maior de ter problemas de coração. Agora, depois de muitos estudos sabe-se que a influência da raiva no desenvolvimento de doenças cardíacas é comparável a essas causas anteriormente conhecidas, e mais, independentemente delas. Isso quer dizer que, se a pessoa não tiver nenhuma dessas condições relacionadas ao desenvolvimento de doenças cardíacas, mas for raivosa, estará igualmente sujeito a elas.


A raiva sendo apenas uma emoção gera apenas estresse e não mágoa. Já o ódio sendo um sentimento provoca mágoa crônica, angústia e frustração. Ele consome o equilíbrio interno e sendo mais durável é compatível com um câncer, com arteriosclerose, com diabetes ou hipertensão crônica.


Observando a natureza podemos perceber que até mesmo animais podem sentir raiva quando defendem o seu território ou lutam por uma fêmea. No entanto passada a causa do evento eles voltam a ter um comportamento normal sem mágoa alguma.


No livro A arte de lidar com a raiva, escrito a partir de palestras do Dalai Lama, ele cita que em termos gerais o propósito da nossa existência seria a busca da felicidade e da realização e que para experimentar mais plenamente esse nível de alegria e felicidade a chave é a atitude mental da pessoa. Ele ressalta alguns fatores que contribuem para alcançarmos a felicidade: saúde, conforto (mesmo que com simplicidade) e um círculo de amigos.


Por ser muito interessante a abordagem feita sobre o assunto vou transcrever a seguir um excerto do livro.
Para que possamos aproveitar plenamente, com o objetivo de desfrutar uma vida feliz e realizada, o estado de espírito da pessoa é crucial. Se há pensamentos de ódio lá no fundo, ou uma raiva forte e intensa, a saúde fica arruinada. Com isso um dos fatores que contribuem para a felicidade é destruído. Mesmo quando se tenha bens maravilhosos, a pessoa sente vontade, num momento de raiva ou ódio, de jogar tudo fora, de quebrar tudo. Portanto não há garantia de que a riqueza por si só possa proporcionar a alegria ou a realização que procuramos. Da mesma forma quando se experimenta um estado de intensa raiva ou ódio, até mesmo um amigo íntimo parece frio e distante, talvez irritante.


O que isso indica é que o nosso estado de espírito é crucial para determinar se vamos ou não encontrar alegria e felicidade. Assim quanto maior o nível de serenidade da mente, maior a paz de espírito e maior a capacidade de desfrutar uma vida alegre e feliz.


Cabe ressaltar, no entanto, que quando falamos num estado de serenidade mental ou paz de espírito, não devemos confundir com um estado de completa insensibilidade e apatia em que não há sentimento, como se a pessoa estivesse completamente vazia. Não é a isto que nos referimos quando falamos de serenidade da mente e paz de espírito. A genuína paz de espírito está enraizada na afeição e compaixão. Há um nível elevado de sensibilidade e sentimento envolvido. Portanto, enquanto carecermos de disciplina interior, de serenidade da mente, nunca poderemos alcançar o sentimento de alegria e de felicidade que procuramos, quaisquer que sejam as facilidades ou condições externas que possamos ter. Por outro lado, se possuímos essa qualidade interior é possível levar uma vida alegre e feliz, mesmo que não tenhamos as circunstâncias externas que são normalmente consideradas necessárias para isso.


Se examinarmos como surgem os pensamentos de raiva ou ódio, vamos descobrir que, de um modo geral, ocorrem quando nos sentimos magoados, quando sentimos que fomos tratados com injustiça por alguém, ao contrário de nossas expectativas. Se no mesmo instante, analisarmos a maneira como a raiva aflora, poderemos observar que contém um elemento protetor, como se fosse um amigo para ajudar em nossa batalha, ou a consumar a vingança contra a pessoa que nos infligiu tanto mal. Ou seja, o pensamento de raiva ou ódio apresenta-se como um escudo, como uma proteção. Na realidade, porém, isso não passa de uma ilusão. É um estado mental distorcido.


Se alguém foi tratado com injustiça e a situação não foi resolvida, as consequências para a pessoa responsável podem ser extremamente negativas. Uma situação assim exige uma neutralização forte. Em tais circunstâncias, é possível que, por compaixão pelo responsável e sem gerar raiva ou ódio, a pessoa assuma uma posição firme e adote contramedidas vigorosas.

Desejo a você uma semana de paz e harmonia.