domingo, 2 de março de 2014

A Natureza e nós

     Recebo constantemente visitas de amigos que moram em área urbana. Na maioria das vezes fazem comentários sobre a sensação de paz que sentem ao passarem algum tempo conosco. Houve um caso em que um visitante que aqui veio pela primeira vez e em determinado instante não conteve as lágrimas pela emoção que sentiu num determinado local de nosso ambiente. Em outra ocasião, a esposa de outro amigo que também não conhecia este local, teve que ser convencida com insistentes argumentos pelo marido para que ela o acompanhasse numa visita a nós. Ao fim daquele domingo ela comentou a sua satisfação por ter vindo. À noite ao chegar na sua residência, o casal voltou a nos ligar perguntando se poderiam retornar na manhã seguinte para usufruir mais alguns instantes da harmonia e paz que sentiram aqui.
     Citei estes dois casos apenas para ilustrar como existem pessoas que conseguem sentir a energia positiva que existe na natureza.
     O fato de eu estar residindo numa área rural e portanto em contato direto com a natureza e com animais há longo tempo me fez perceber como a minha maneira de ver o mundo está alinhada com o texto abaixo.
     Acreditemos nisto ou não, nós dependemos da natureza não só para nossa sobrevivência física, mas também para nos ajudar a estabelecermos a conexão com o todo. Este é um caminho de saída da prisão de nossas mentes.
     Perdemos-nos no fazer, no pensar, no recordar, no antecipar.  Estamos perdidos num complexo labirinto cheio de problemas.
   Esquecemos o que as rochas, as plantas e os animais sabem. Esquecemos-nos de ser. De sermos nós mesmos, de estar em silencio, de estar onde a vida está: No aqui e agora.
     Quando colocamos a atenção numa pedra, numa árvore ou em um animal não devemos apenas pensar neles, mas devemos simplesmente percebê-los dando-nos conta deles. Então este nível de percepção nos transmite algo da sua essência. Isto nos faz sentir profundamente em harmonia com o Ser, completamente unificado  com o que verdadeiramente somos e com o lugar onde estamos.
Ao perceber a natureza, também alcançamos um lugar de profunda paz dentro de nós mesmos. Ao caminharmos ou descansarmos na natureza, procuremos fazer disso uma oportunidade de permanecer ali plenamente. Em paz.  Olhando.  Escutando.


     Observemos como cada planta ou animal são completamente eles mesmos. Muito diferente de nós humanos, pois não estão divididos em dois. Não vivem através de imagens mentais de si mesmos, e por isso não tem que preocupar-se, de proteger e melhorar essas imagens. 
    Todas as coisas naturais, além de estar unificadas consigo mesmas, estão unificadas com o todo. Não estão separadas do todo reclamando uma existência separada. O “Eu” é o grande criador de conflitos. Tomemos consciência de que não criamos o nosso corpo nem somos capazes de controlar as funções corporais. Em nosso corpo opera uma inteligência maior do que a mente humana. É a mesma inteligência que dá vida a toda natureza. Para aproximar-se dessa inteligência é preciso estar consciente do próprio campo interno de energia. Sintamos a vida. Sintamos a presença que anima o organismo.

    Não se pode sentir a plenitude da vida percebendo a natureza somente através da mente e pensamentos.  Através da mente só vemos a forma da natureza, mas não ficamos conscientes do mistério sagrado da vida que a anima. O pensamento reduz a natureza a um bem de consumo. Apenas um meio para conseguir benefícios, conhecimento, ou algum outro propósito prático. Paremos por alguns instantes e procuremos sentir um animal, uma flor ou uma árvore. Perceberemos como eles descansam no Ser. Cada um é apenas ele mesmo. Com uma enorme dignidade, inocência e santidade.  No instante em que conseguimos olhar além das etiquetas mentais, sentiremos a dimensão inefável da natureza que não pode ser compreendida pelo pensamento. É uma harmonia, uma sacralidade que, além de penetrar a totalidade da natureza, também está dentro de nós. O ar que respiramos é natural, como o próprio processo de respirar. Se prestarmos atenção a nossa respiração e perceberemos que não somos nós quem respira.
Conectarmo-nos com a natureza do modo mais íntimo e interno percebendo a própria respiração e aprendendo a manter tua atenção nela é uma prática capaz de curar e preencher-nos de energia. Isto produz uma troca de consciência que permite passar do mundo conceptual do pensamento a uma condição de consciência incondicional.

     Não estamos separados da natureza. Todos nós fazemos parte  da Vida Una que se manifesta em incontáveis formas em todo o universo. Formas que estão completamente interconectadas.  Quando reconhecermos a santidade, a beleza, a incrível quietude e dignidade que existe numa árvore ou numa flor, então acrescentamos algo à arvore ou à flor.
Pensar é uma etapa na evolução da vida. A natureza existe numa quietude inocente que é anterior a aparição do pensamento. Quando os seres humanos se aquietam, vão além do pensamento.  A quietude que está além do pensamento contém uma dimensão acrescida de conhecimento e de consciência.

     A natureza pode levar-nos à quietude. Isto é um presente para nós. Quando percebermos a natureza e nos unimos a ela no campo da quietude, ela se preenche com a nossa consciência. Isto é o nosso presente para a natureza. Através de nós, a natureza toma consciência de si mesma. É como se a natureza estivera nos esperando durante milhões de anos.

 (Texto baseado em diálogos de Eckhart Tolle)
     
     Em Paz e Harmonia.

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