Em
seu livro Os segredos do Pai-Nosso, Augusto
Cury confessa que foi um dos ateus mais críticos que já existiram. No entanto,
depois de intensa reflexão, se convenceu de que não há discurso ateísta que
aplaque a ansiedade inconsciente do ser humano pela compreensão da vida e pela
continuidade da existência. O vácuo da inexistência, diz ele, imposto pela
morte nos perturba profundamente e só não se inquieta quem não o analisou.
Explicando
tal afirmação ele diz:
Tal inquietação, longe de ser
negativa é uma fonte inesgotável que impulsiona o saber e alimenta a produção
teólogos, religiosos, filósofos, pensadores e cientistas. Sempre haverá um
prazer na mente humana pelo desconhecido, pela superação das intempéries.
Sempre haverá o desejo irrefreável de desvendar o Autor da existência.
Einstein também foi consumido por
essa inquietação. Não se contentou em produzir conhecimento sobre a relação
espaço-tempo. Queria entender Aquele que inaugurou e fundamentou os elementos
da existência. Desejava perscrutar a mente de Deus. Sócrates instigava os seus jovens
discípulos com o pensamento: “Conhece-te a ti mesmo!”. Todavia, não é possível
conhecer sem perguntar. Não é possível perguntar sem duvidar. Não é possível
duvidar sem experimentar ansiedade. Este tipo de ansiedade é saudável, pois
abre as janelas da inteligência e nos dá prazer nos desafios.
Na era da computação e da internet o
conhecimento é oferecido pronto, um “fast-food” intelectual inclusive nas
universidades. Os jovens não experimentam aventura, ansiedade pelo
desconhecido. Não sabem perguntar, duvidar e produzir novas ideias.
A rotina social e o consumismo
entorpecem nossa capacidade de ficar atônitos com a vida. O incomum tornou-se
comum. Milhões de pessoas acordam, levantam, seguem uma agenda engessada,
atormentam-se com problemas, sem nunca golpear a inteligência com a lâmina das
perguntas.
Raramente alguém indaga: O que é a
existência? Sou um ser humano ou uma máquina de atividades? Sou um aparelho de
consumir ou um mundo a ser descoberto? Ingerimos poucas ideias e muitos
produtos. Não percebemos que existir como ser consciente é o mistério dos
mistérios. Não entendemos que não sabemos quase nada sobre as questões mais
relevantes da existência.
Somos uma partícula que surge na arena da
existência e logo desaparece. Apesar da pequenez do ser humano, nosso
pensamento caminha na esfera da imaginação mais rápido do que a luz, e é mais
fértil do que o solo mais rico. Perambulamos apreensivos durante algumas
dezenas de anos em nossa breve trajetória existencial usando o aparelho
psíquico para tentar desvendar o desconhecido, em especial a vida. Perguntar é o
nosso destino. Sabemos muitas coisas sobre o mundo físico e biológico, mas sabemos
pouquíssimo sobre nós mesmos. Sobre a nossa psique.
E você já se perguntou quem
realmente é?
Permaneça em Paz e Harmonia.
(Continuação
do livro o Poder do Agora de Eckhart Tolle.)
Onde quer que você
esteja, esteja por inteiro
Você
pode dar outros exemplos da inconsciência comum?
Observe quando estiver reclamando, com
palavras ou pensamentos, de uma situação que envolva você – pode ser alguém que
fez ou disse algo que lhe aborreceu, algo sobre a sua situação de vida, o lugar
onde mora, ou até mesmo o tempo. Reclamar é sempre uma não aceitação de algo
que é. Essa atitude contém invariavelmente uma carga negativa
inconsciente. Quando você reclama, transforma-se em vítima. Quando fala, você
está no controle. Portanto, mude a situação agindo ou falando, caso necessário
ou possível, ou então fuja da situação ou mesmo aceite-a. Tudo o mais é
loucura.
A inconsciência comum é sempre
relacionada, de algum modo, com a negação do Agora. O Agora, naturalmente,
também implica o aqui. Você está resistindo ao aqui e agora? Algumas pessoas
prefeririam estar num outro lugar. O “aqui” delas nunca é suficientemente bom.
Observe-se e verifique se isso acontece em sua vida. Onde quer que você esteja,
esteja lá por inteiro. Se você acha insuportável o seu aqui e agora e isso lhe
faz infeliz, há três opções: abandone a situação, mude-a ou aceite-a totalmente.
Se você deseja ter responsabilidade sobre a sua vida, deve escolher uma dessas
opções e deve fazê-lo agora. Depois, arque com as consequências. Sem desculpas.
Sem negatividade. Sem poluição física. Mantenha limpo o seu espaço interior.
Se você tomar qualquer atitude,
abandonando ou mudando a situação, livre-se primeiro da negatividade. Uma
atitude originada no discernimento tem mais efeito do que uma originada na
negatividade.
Uma atitude qualquer é muitas vezes
melhor do que nenhuma atitude, especialmente se há muito tempo você está
paralisado numa situação infeliz. Se for uma atitude errada, ao menos você
aprenderá alguma coisa, caso em que deixará de ser um erro. Se você não agir,
nada aprenderá. Será que o medo está evitando que você tome uma atitude? Admita
o medo, observe-o, concentre-se nele, esteja totalmente presente. Isso corta a
ligação entre o medo e o pensamento. Não deixe o medo nascer em sua mente. Use
o poder do Agora. O medo não pode prevalecer sobre ele.
Se não há mesmo nada a fazer e você
não pode mudar a situação, então aceite o aqui e agora totalmente, abandonando
toda a resistência interior. O falso e infeliz eu interior, que adora sentir-se
miserável, ressentido ou com pena de si mesmo, não consegue mais sobreviver.
Isso se chama rendição. A rendição não é uma fraqueza. Há uma grande força
nela. Somente alguém que se rendeu tem poder espiritual. Através da rendição,
você se livrará da situação internamente. É possível que você perceba uma
mudança na situação sem que tenham sido necessários maiores esforços da sua
parte. De qualquer forma, você está livre.
Ou haverá algo que você “deveria”
estar fazendo, mas não está? Levante-se e faça agora. Ou, em vez disso, aceite
totalmente a sua inatividade, preguiça ou passividade neste momento, se esta é
a sua escolha. Mergulhe nela por inteiro. Desfrute-a. Seja tão preguiçoso ou
inativo quanto puder. Se você fizer isso conscientemente, logo sairá dela. Ou
talvez não. Em qualquer dos casos, não há nenhum conflito interior, nenhuma
resistência, nenhuma negatividade.
Você está sofrendo de estresse? Pensa
tanto no futuro que o presente está reduzido a um meio para chegar lá? O
estresse é causado pelo estar “aqui” embora se deseje estar “lá”, ou por se
estar no presente desejando estar no futuro. É uma divisão que corta a pessoa
por dentro. Criar e viver com essa divisão é insano. O fato de que todas as
pessoas estão agindo assim não torna ninguém menos insano. Se você não pode
fugir disso, tem de se movimentar rápido, trabalhar rápido, ou até mesmo
correr, sem se projetar no futuro e sem resistir ao presente. Quando se
movimentar, trabalhar e correr, faça tudo por inteiro. Desfrute o fluxo de
energia, a alta energia desse momento. Agora não há mais estresse, não há mais
divisão por dois, apenas o movimento, a corrida, o trabalho. Desfrute essas
atitudes. Ou você também pode abandonar tudo e se sentar num banco do parque.
Mas, ao fazê-lo, observe a sua mente. Pode ser que ela diga: “Você devia estar
trabalhando. Está perdendo o seu tempo”. Observe a mente. Sorria para ela.
O passado toma uma grande parte da sua
atenção? Você frequentemente fala e pensa sobre ele, tanto de forma positiva
quanto negativa? As grandes coisas que você conquistou, suas experiências e
aventuras, ou as coisas horrorosas que lhe aconteceram, ou talvez que você fez
a alguém? Será que seus pensamentos estão gerando culpa, orgulho,
ressentimento, raiva, arrependimento ou autopiedade? Então, você está não só
dando mais força ao falso eu interior, como também ajudando a acelerar o
processo de envelhecimento do seu corpo através da criação de um acúmulo de
passado na sua psique. Constate isso observando à sua volta aquelas pessoas que
têm uma forte tendência para se apegar ao passado.
Morra para o passado a cada instante.
Você não precisa dele. Refira-se a ele apenas quando totalmente relevante para
o presente. Sinta o poder do momento presente e a plenitude do Ser. Sinta a sua
presença.
Você tem preocupações? Tem muitos
pensamentos do tipo “e se”? Você está identificado com a mente, que está se
projetando num futuro imaginário e criando o medo. Não há como enfrentar tal
tipo de situação, porque ela não existe. É um fantasma mental. Você pode parar
com essa insanidade que corrói a saúde e a vida aceitando simplesmente o
momento presente. Perceba a sua respiração. Sinta o ar entrando e saindo do seu
corpo. Sinta o seu campo interno de energia. Tudo com o que você sempre teve
que lidar, tudo que teve de enfrentar na vida real, em oposição às projeções
imaginárias da mente, é o momento presente. Pergunte-se qual é o seu
problema neste exato momento, não no ano que vem, ou amanhã ou daqui a cinco
minutos. O que está errado neste exato momento? Você pode sempre enfrentar o
Agora, mas não pode jamais enfrentar o futuro, nem tem de fazer isso. A
resposta, a força, a atitude certa estarão à sua disposição quando você
precisar, nem antes, nem depois.
“Algum dia vou fazer isso”. Seu
objetivo está tomando de tal modo a sua atenção que o momento presente é apenas
um meio para atingir um fim? Está consumindo a alegria das coisas que você faz?
Você está esperando para começar a viver? Se você desenvolver esse tipo de
padrão mental, não importa o que você adquira ou alcance, o presente nunca será
bom o bastante. O futuro sempre parecerá melhor. Uma receita perfeita para uma
insatisfação permanente, você não acha?
Você está sempre “esperando” alguma
coisa? Quanto tempo da sua vida você passou esperando? Chamo “espera de pequena
escala” à espera na fila do correio, num engarrafamento de automóveis, no
aeroporto, por alguém que vai chegar, um trabalho que precisa ser terminado,
etc. Chamo de “espera em grande escala” à espera pelas próximas férias, por um
emprego melhor, pelos filhos crescerem, por uma relação verdadeiramente significativa,
pelo sucesso, para ficar rico, para ser importante, para se tornar iluminado.
Não é raro que as pessoas passem a vida toda esperando para começar a viver.
Esperar é um estado mental. Significa
basicamente desejar o futuro e não querer o presente. Você não quer o que
conseguiu e deseja aquilo que não conseguiu. Em qualquer dos tipos de espera
você, inconscientemente, cria um conflito interior entre o seu aqui e agora,
onde você não quer estar, e o futuro projetado, onde você quer estar. Essa
situação reduz grandemente a qualidade da sua vida ao fazer você perder o presente.
Não há nada de errado em nos
empenharmos para melhorar a nossa situação de vida. Podemos melhorar a situação
da nossa vida, mas não podemos melhorar a nossa vida. A vida é básica.
A vida é o Ser interior mais profundo.
É um todo, completo, perfeito. A nossa situação de vida se constitui das nossas
circunstâncias e experiências. Não há nada de errado em estabelecermos metas e
nos empenharmos para conseguir bens. O erro reside em usar isso como um
substituto para o sentimento da vida, para o Ser. O único ponto de acesso a
isso é o Agora. Agimos, assim, como um arquiteto que não dá atenção às fundações
de uma construção, mas que gasta um bom tempo trabalhando na superestrutura.
Por exemplo. Muitos de nós estamos à
espera da prosperidade. Ela pode não acontecer no futuro. Quando respeitamos,
admitimos e aceitamos completamente a realidade do presente – onde estamos,
quem somos, o que estamos fazendo agora –, quando aceitamos o que temos,
significa que estamos agradecidos pelo que conseguimos, pelo que é, pelo
Ser. A gratidão pelo momento presente e pela plenitude da vida atual é a
verdadeira prosperidade. Não está no futuro. Então, no tempo certo, essa
prosperidade se manifesta para nós de várias maneiras.
Se você não encontra satisfação nas
coisas que possui, se tem um sentimento de frustração ou de aborrecimento por
não ter tudo o que quer no presente, isso pode levá-lo a querer enriquecer,
mas, mesmo que consiga milhões, continuará a ter uma sensação de que falta
alguma coisa. Talvez o dinheiro lhe compre muitas experiências excitantes,
embora passageiras, deixando sempre uma sensação de vazio e estimulando uma necessidade
de gratificação física ou psicológica ainda maior. Você não vai se conformar em
simplesmente Ser e, assim, sentir a plenitude da vida agora – a verdadeira
prosperidade.
Portanto, desista da espera como um
estado da mente. Quando você se vir escorregando para a espera... pule fora.
Venha para o momento presente. Apenas seja e aprecie ser. Quando estamos
presentes, nunca precisamos esperar por nada. Portanto, da próxima vez que
alguém disser “desculpe por ter feito você esperar”, sua resposta pode ser: “Está
tudo bem, não estava esperando. Estava aqui contente comigo, com meu eu interior”.
Essas
são apenas algumas das estratégias comuns da mente para negar o momento
presente já incorporadas à inconsciência comum. São fáceis de passar
despercebidas porque já estão entranhadas em nosso modo de vida, como o ruído
de fundo do nosso eterno descontentamento. Mas, quanto mais você praticar o monitoramento
do seu estado interior emocional e mental, mais fácil será perceber em que
momento você foi capturado pelo passado e pelo futuro, bem como despertar da
ilusão do tempo dentro do presente. Mas tenha cuidado porque o eu interior
falso e infeliz, baseado na identificação com a mente, vive no tempo. Ele sabe
que o presente significa sua própria morte e sente-se ameaçado. Fará tudo para
afastar você do Agora. Tentará manter você preso ao tempo.
(Continua)